Por um paisagismo nacional,independente e sustentável

Escrito por Raul Cânovas   
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Há quarenta anos decidi morar aqui, no Brasil, ou para ser mais exato com as palavras, viver neste país; já que viver, significa aproveitar nossa existência e não, apenas, ocupar um espaço como é o caso daqueles que habitam ou residem num lugar qualquer. Meu sonho era usar as plantas tropicais que, até esse momento, conhecia de forma bastante limitada; ansiava por tê-las nos meus projetos e dessa maneira criar jardins menos sisudos e mais bucólicos.
Parecia-me fantástica a ideia de poder embrenhar na Mata Atlântica e ver de perto a flora mais diversificada do planeta, sabia que os biomas brasileiros nutriam 56.000 espécies nativas, um número colossal se comparado ao de outras regiões dos cinco continentes; nessas florestas, no cerrado, na caatinga e em outras formações complexas e litorâneas vivem 11% de todos os pássaros do mundo, além de 37% dos répteis, 61% dos anfíbios e 35 % dos primatas; mas não é só, 3.000 peixes diferentes são amparados pelos rios deste país.
Pena que esses mesmo cursos d’água estejam hoje muitas vezes, com suas margens assoreadas e suas águas poluídas; só no Estado de São Paulo foram devastadas 70% das florestas de Mata Ciliar, algo assim, como 120.000 km de bordas d’água destruídas (três vezes a circunferência da Terra); para recuperá-las seria necessário o plantio de meio milhão de mudas, que crescem, habitualmente, em terrenos periodicamente inundados.
Mas o que um paisagista tem a ver com tudo isso? Pois é, na época em que, William Kent, Lancelot Brown e Humphry Repton planejavam enormes áreas verdes para o prazer e deleite dos ingleses, o compromisso era esse mesmo e estava determinado pelos valores hedônicos de uma sociedade neoclassicista que contava com uma elite poderosa e abastada.
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Hoje, decorridos duzentos e poucos anos, o profissional que projeta espaços ao ar-livre tem uma dívida com a cultura ambiental da região onde irá trabalhar; a estética é relevante sim, porém, mais importante do que ela é acudir as necessidades urgentes e indispensáveis das comunidades submetidas ao lado perverso de uma globalização que não hesita em apagar as tradições, os hábitos e a história de uma América Latina que ainda lambe suas feridas coloniais.
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Abastecer a terra com as sementes das nossas árvores, para que elas, através de suas sombras energéticas, escorem uma sociedade um tanto cansada de tanta tecnologia… Este é meu desejo.