A Paisagem em MINAS

MAURO FERREIRA – Verdes mineiros
Óleo sobre tela – 16 x 24

Tentei fazer um apanhado da arte paisagística em Minas Gerais. O texto que se segue serve apenas com uma introdução ao assunto, uma vez que é vasto e ainda sem um registro sistemático que possa se transformar em uma fonte de pesquisa confiável. Importante ressaltar que todas as referências que utilizei nasceram também assim, de fontes variadas, das quais seus autores galgaram também um longo trajeto pela pesquisa em fontes escassas. Durante todo o desenvolver desse texto, se tornou impossível não estar comentando assuntos de interesse nacional, uma vez que todos os movimentos importantes acontecidos em nossa arte, tiveram uma abrangência cultural mais globalizada, e os seus protagonistas também estavam envolvidos em vários ambientes do país.
CLÁUDIO VINÍCIUS – Beira de rio
Óleo sobre tela – 30 x 40

A paisagem mineira é incrivelmente diversificada e rica, com ambientes que vão desde a mais densa mata atlântica, até campos de cerrado e regiões bem agrestes, no Vale do Jequitinhonha. Cadeias de montanhas importantes, como as da Mantiqueira, Espinhaço e Canastra, diversificam ainda mais esse cenário. Na literatura, nosso ambiente se imortalizou em obras como “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, e o retrato urbano começou a ser montado nas muitas observações minuciosas de Carlos Drumond de Andrade. Mas é especialmente para as artes plásticas, a grande contribuição que o cenário mineiro emprestou em obras.

JOÃO BOSCO CAMPOS – Garimpo
Óleo sobre tela – 50 x 70 – 1991

ANTÔNIO GOMIDE – Procissão
Aquarela – 20 x 30 – 1958
Quaisquer que sejam as tentativas de falar sobre a história do paisagismo em Minas Gerais, nenhuma delas poderá isentar as muitas contribuições que fizeram grandes artistas mineiros no cenário da pintura brasileira. Guignard e Edgar Walter encabeçam uma lista das mais variadas e de grandes qualidades. Voltar um pouco atrás no tempo é primordial para entender como se formaram os primeiros passos e as trilhas pelas quais eles puderam se conduzir.

YARA TUPINAMBÁ – Mata do Parque Rio Doce
80 x 100 – 2004

Não é tarefa fácil refazer, hoje, os caminhos percorridos por nossos antecessores, uma vez que a memória artística nos primórdios da história do Brasil, carece de fontes confiáveis de pesquisa. Só agora, nas últimas décadas, alguns estudos mais sérios e algumas ótimas publicações, puderam lançar uma luz no entendimento dos nossos primeiros momentos histórico-culturais. Registros como “Pintores Paisagistas”, de Ruth Sprung Tarasantchi, “Revelando um acervo – Coleção Brasiliana”, organizado por Carlos Martins e “Expedição Langsdorff”, das Edições Alumbramento, são exemplos que deveriam se transformar em modelos de resgate da nossa memória nacional. Oxalá sejam seguidos por muitos.

ELIAS LYON – Procissão em Ouro Preto
Óleo sobre tela


As poucas fontes de referências sobre o paisagismo na pintura mineira começaram a ganhar volume e expressão somente nos finais do século XIX. Mais no início do século, antes da chegada da família real no Brasil, existia por aqui uma arte colonial sem muitos representantes famosos na pintura, exceto para as pinturas religiosas, ficando a cargo das construções católicas, o maior legado do patrimônio daquele período. Aleijadinho é o maior representante mineiro do Brasil colônia, e um dos maiores nomes que a arte brasileira já teve. Embora morasse em Minas e tenha todo o seu conjunto de obra exclusivamente feito aqui, viveu num período em que a igreja era o maior mecenas, e toda sua produção foi direcionada para alimentar os fins de sua patrocinadora. A paisagem ainda era um adereço da composição, e Minas parece não ter tido grande influência sobre a temática em sua produção.

JOSÉ RICARDO – Pastando
Óleo sobre tela – 70 x 100 – 2011
MILTON PASSOS – Vista do Rosário
Óleo sobre tela – 40 x 50 – 2009
Foi um processo lento, de mais de um século, ver o tema “paisagem” deixar os fundos das composições e tornar o tema principal, tanto na Europa, quanto em qualquer outra parte onde isso tenha ocorrido. Para o Brasil em especial, a Expedição Francesa financiada pela família real, foi quem mais contribuiu para alargar os horizontes nesse sentido. Deve-se muito aos esforços do Conde de Barca, o sucesso dessa expedição. Extasiados pela beleza intacta e exuberante de um país ainda recente, vários registros feitos pelos artistas de tal expedição se transformaram nos mais valiosos apontamentos da pintura brasileira naquele período. Debret é o nome mais forte dentre os artistas que por aqui estiveram. Mas, um século antes dessa expedição, Franz Post veio a convite de Maurício de Nassau, e é certo que tenha feito os registros mais valiosos do Brasil em seus primeiros passos como nação colonizada.

JOHANN MORITZ RUGENDAS – Cidade Imperial de Ouro Preto, detalhe
Aquarela e tinta nanquim – 25,5 x 36,5 – 1824

Uma outra expedição, a Expedição Langsdorff, assim chamada por ter sido realizada com a iniciativa de Grigory Ivanovitch Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, foi realizada entre 1821 e 1829. Ele contratou botânicos, astrônomos, navegadores e, em especial, os artistas Rugendas, Adrien Taunay e Florence, que se embrenharam Brasil adentro e fizeram pesquisas inéditas por aqui. Todo o material iconográfico, colhido em tais andanças, permanecia desaparecido, desde 1829, vindo a serem descobertos somente em 1930, em porões do Museu do Jardim Botânico de São Petersburgo, na Rússia, quando esta ainda se chamava Leningrado. Apenas essa expedição já é material suficiente para uma outra extensa matéria.

JOHANN MORITZ RUGENDAS – São João del Rey
Aquarela e nanquim – 25 x 35 – 1824
JOHANN MORITZ RUGENDAS
Convento de N S da Conceição, na Serra do Caraça, Província de Minas Gerais
Lápis sobre papel – 24,5 x 34 – 1824
Da expedição Langsdorff, Rugendas talvez tenha sido o mais preocupado em retratar a paisagem. A sua passagem por Minas Gerais rendeu diversos estudos em lápis e aquarelas, com especial destaque para as muitas cenas colhidas na região de Barbacena, Ouro Preto, São João Del Rey, Sabará, até regiões como a Serra do Caraça e muitas fazendas que se formavam nessas localidades. Todas essas preciosidades se encontram hoje expostas nos museus da Academia de Ciências da Rússia, em São Petersburgo.
Não só por aqui, mas em quase todo o mundo ocidental, o século XIX atravessou um período de rupturas e experiências, da arte acadêmica com narrativa histórica cedendo lugar para temas mais realistas, naturalistas, culminando finalmente; em países mais abertos às novidades; com o surgir do Impressionismo e suas tardias variações.

GUIGNARD – Sabará
Óleo sobre tela – 38 x 47 – 1950 – Coleção particular
INIMÁ DE PAULA – Paisagem de Barbacena
Óleo sobre tela – 82 x 100 – 1982
SÉRGIO TELLES – Praça Tiradentes, Ouro Preto
Óleo sobre tela – 80 x 100 – 1993
Não tivemos Impressionismo no Brasil, pelo menos no período em que ele aconteceu em outras partes do mundo. Alguns artistas, que presenciaram o movimento na Europa quando ele aconteceu, chegaram por aqui com tendências impressionistas. Artur Timóteo da Costa, Henrique Cavaleiro e Eliseu Visconti foram os que fizeram nossos primeiros ensaios do movimento impressionista, mesclando adereços nouveau aos seus trabalhos.
De igual importância na formação dos artistas de nossa terra, foi a passagem por aqui dos irmãos Grimm, que mesmo ainda fiéis ao estilo acadêmico, já saíam a campo e incentivavam nossos jovens aprendizes no exercício em plein air. Não foram poucos os que saciaram os conhecimentos nesses ensinos: Batista da Costa, Castagneto, Nicolas Vinet, Antônio Parreiras, Hipólito Caron, Vasquez, Facchinetti… Os ecos de tal ensino produziram ótimos paisagistas por aqui, e depois da virada do século XIX para o XX, quando esse tema já era recebido com menos reservas, muitos centros do país já produziam suas próprias escolas regionais e desenvolviam temáticas mais personalizadas.

TÚLIO MUGNAINI – Ouro Preto
Óleo sobre cartão – 24 x 33

Como a prática da pintura em plein air se espalhou pelo início do século XX, Minas foi positivamente favorecida por tal iniciativa. Alguns nomes, já pouco lembrados e quase esquecidos, representaram o estado nesse período: Genesco Murta, Benedito Luizi e Osvaldo Teixeira. Vários outros artistas, de diferentes estados, também representaram Minas em suas composições. Todos já apresentavam uma pincelada solta, deliberadamente desligada da arte acadêmica rigorosa, que já perdia força. Norfini e Túlio Mugnaini abriram caminhos para esses “estrangeiros”. Mas foi com José Wasth Rodrigues, que a temática mineira ganhou visão nacional. As suas muitas aquarelas e bicos de pena, que depois se transformaram em óleos, o deixaram conhecido como o mais nacionalista dos pintores. Pela primeira vez, alguém fazia e expunha Minas com tanto empenho. Lugares nunca antes visitados por nenhum outro artista, tornaram tema corrente de sua obra: Caeté, Campanha, Barbacena, Catas Altas, Congonhas do Campo, além das já badaladas cidades do circuito histórico mineiro, com ênfase para Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey e Tiradentes.

JOSÉ WASTH RODRIGUES – Paisagem de Minas
Óleo sobre madeira – 44 x 59 – 1932

Um fato curioso, e importante de relatar, é que no século XX muitos estilos se desenvolveram em paralelo, não só aqui, mas em diversas partes do mundo. Após os adventos da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, vários modernistas mineiros entraram em cena. Influenciados pelos experimentos pós-impressionistas, expressionistas e modernistas europeus, algumas figuras se destacaram e merecem o nosso maior respeito. Inimá de Paula se identificou com um fauvismo tropical, que em nada deve às suas inspirações francesas. Guignard, que mesmo não sendo mineiro de nascença, incorporou a mineirice e fez dela o estandarte maior de seu trabalho. Ouro Preto foi o seu palco principal e produziu um vasto repertório com temas do estado e ainda formou vários alunos e discípulos, a destacar Amílcar de Castro, Farnese de Andrade, Yara Tupinambá e Lygia Clark. Outros artistas que desenvolveram o tema mineiro no pós-guerra, também deixaram grandes contribuições: Carlos Scliar, Brecheret, Ceschiatti, até nomes mais atuais como Bracher e Sérgio Telles. Todos com os olhos atentos aos movimentos mundiais, mas com a temática sempre buscando representar Minas e o que viveram.

EDGAR WALTER – Lavadeiras
Óleo sobre tela
          
EDGAR WALTER – Amanhecer em Ouro Preto e
Estrada com carro de boi
Óleo sobre tela

A pintura paisagística acadêmica, no entanto, só veio a conhecer um representante influente, nas hábeis mãos de Edgar Walter. Envolvido com amigos como Alberto Braga, Benedito Luizi e Sebastão Fonseca, foi produzindo discípulos e disseminando um estilo mineiro de fazer paisagens. Não é exagero dizer que talvez seja um dos movimentos de maior identidade com o estado, ainda que seus artistas tenham recebido perceptível influência da pintura naturalista e realista da França e da Itália do século XIX. Mas o movimento ganhou identidade própria. Encantado e declaradamente admirador da paisagem mineira, Edgar arrebatou um grande número de seguidores, e até hoje a influência de sua obra é um ponto marcante no paisagismo mineiro.

JÉSUS RAMOS – Paisagem com bambu e beira de rio
Óleo sobre tela
TÚLIO DIAS – Paisagem com animais
Óleo sobre tela – 90 x 150 – 2011
JOSÉ ROSÁRIO – Vista de Diamantina
Óleo sobre tela – 70 x 100 – 2004
Mesmo que a paisagem em Edgar Walter tenha ainda uma tendência acadêmica, a luz já exerce um fator predominante em sua composição, fato que vem estimular em seus seguidores, caminhos mais contemporâneos, com linguagens mais ousadas que muito lembram o Impressionismo. Temos vários representantes nesse sentido: Luiz Pinto, João Ornelas, João Bosco Campos, Mauro Ferreira, Jésus Ramos, Túlio Dias, Milton Passos, Hilton Costa, Elias Lyon. Cláudio Vinícius ainda mantém uma linguagem mais acadêmica, mas com um frescor que se renova ano após ano, praticando uma pintura isenta de rótulos e estigmas. Wilson Vicente, Helvécio Morais e Rubens Vargas também seguem essa tendência. Todos os nomes da atual cena vêem neles referências muito seguras, e em seus encalços vem artistas como José Ricardo, Anderson Conde e um grande representante da mais nova geração, Vinícius Silva. São todos minhas orgulhosas referências e atualmente alguns deles se tornando grandes amigos.
HELVÉCIO MORAIS – Luz da manhã
Óleo sobre tela

WILSON VICENTE – Cargueiros
Acrílica sobre tela – 60 x 80 – 2011
VINÍCIUS SILVA – Ipê na serra
Óleo sobre tela – 40 x 50
O cenário mineiro continuará encantando aos que são daqui e aos que por aqui se aventuram um dia. Seja no mistério de cada curva de estrada, no sereno frio de cada cachoeira, ou na ladeira de cada casario. Passam os anos, mas sobre os palcos daqui, a vida continua.
joserosarioart.blogspot.com
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