O Jardim da Escola

“A paisagem é memória. Muito além de seus limites a paisagem conserva as marcas do passado, reconstrói lembranças. Projeta nosso olhar nas sombras de outros tempos, que apenas existem como um reflexo de si mesmo na memória do viajante, ou daquele que simplesmente segue fiel a essa paisagem. A paisagem é eterna e sobrevive a aquele que a contempla.”
(O Rio Esquecido, de Júlio Llamazares)
  
O texto acima é de um escritor e jornalista espanhol contemporâneo, que viu sua cidade natal, em 1968, desaparecer sob as águas da Represa de Porma, na Província de León. Tempos mais tarde escrevia que: “Para o homem romântico, a paisagem é, além do mais, a fonte primeira e principal da saudade”. Isto me resulta íntimo e pessoal, porque me faz lembrar a escola primária que freqüentei dos seis aos doze anos de idade.

Lá fui alfabetizado e brincava, durante os recreios, em um pátio ajardinado onde um ceibo majestoso sombreava as tardes ensolaradas. Foi em uma dessas tardes que nossa professora relatou a lenda da Índia Anahí. Segundo contou, era uma moça feiosa, mas com uma voz doce que lembrava o canto da calandra — um passarinho correntino de gorjeio melodioso. Era rebelde como os de sua tribo e amante da liberdade, como o pássaro cantor. Mas um dia caiu prisioneira. Porém, na tentativa de fuga, mata seu sentinela, selando nesse momento seu destino. É recapturada e condenada a morrer na fogueira. Amarrada a uma árvore é envolvida pelas chamas, entretanto, para espanto dos algozes que assistiam o suplício, o corpo de Anahí começa a adquirir a forma de uma árvore graciosa, que vai se coroando de flores cor de fogo.

A alvorada contemplou a primeira Erythrina crista-galli, resplandecendo as margens do Rio Paraná.

Minha professorinha passou um carinho especial pela que é a árvore da Flor Símbolo da Argentina. Talvez, por esse motivo pergunto-me: porque não são plantados paus-brasis nas escolas? Seria uma forma de amor à pátria, um estímulo às nossas crianças que aprenderiam que o nosso país é o único que foi batizado com o nome de uma árvore, uma árvore nativa que perfuma quando suas flores amarelas surgem. Em 1961, o então presidente Jânio Quadros o declarou Árvore Nacional e o ipê-amarelo (Tabebuia vellosoi) a Flor Nacional. Isto precisa ser lembrado. Não é patriotice, é um modo didático de estimular as meninas e os meninos o respeito pela nossa flora, para que, quando adultos, saibam defendê-la. Uma nação, como a nossa, não precisa mais de heróis que morram pela pátria, mas é carente dos verdadeiros defensores de sua diversidade ambiental, da pureza de sua língua e de seus hábitos e costumes.

Quando o aluno aprende a se relacionar com o seu contorno, compreende a diversidade entre os elementos naturais e humanos que se interligam e, dessa forma, começa encontrando maneiras de integrar-se com a natureza e valer-se dela para seu crescimento intelectual. O jardim da escola pode ser uma referência estética de valor pedagógico, dado que simbolizaria os valores culturais, históricos e sociais da região. Não apenas o aspecto visual e, sim, todos aqueles que formem a personalidade do aluno: os perfumes de uma dama-da-noite, o sabor da goiaba madura, o canto do bem-te-vi, a suave textura do tronco de um araçá-piranga.

Devemos entender que a diferença entre país e nação é definida assim: apenas um lugar geográfico para o primeiro e um vasto conjunto de tradições e de fatos vividos, para uma nação que se destaca no mundo.

É sabido que nos primeiros anos de aprendizagem, a criança tem capacidade de interpretar melhor o contorno e, assim, conceituar e guardar ideias para seu futuro.

Falou-se muito, ultimamente, sobre educação. Deveria ser abordada a questão da paisagem, na forma de um jardim, em cada escola, que interprete os fenômenos geográficos e sociais de cada região do Brasil para que os alunos aprendam, desde cedo, o que temos de mais genuíno e inspirador: o conjunto de ecossistemas que formam nosso país.(Jardim das Ideias)

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