Viver com o verde faz bem

Ter em casa ou no trabalho um canto verde, grande ou pequeno, é uma forma de abrir o coração para uma vida mais saudável

É só ter um tempo livre para a família correr para o jardim. Eles observam tudo, tiram as folhas secas, os matinhos, podam alguma espécie, regam e se esmeram nos cuidados com o espaço. “Adoramos acompanhar o desenvolvimento das plantas. Todos os dias, assim que acordamos, vamos lá descobrir o que está acontecendo de novo. Ficamos tão felizes ao ver, por exemplo, os brotos das orquídeas, a florada da costela-de-adão. Em dezembro passado, assistimos ao nascer da flor do cacto mandacaru, que desabrocha à noite e morre ao amanhecer”. As palavras da publicitária Luana Caldeira revelam o grande amor que tem pelas plantas, sentimento compartilhado com o marido, o fotógrafo Daniel Mansur, e agora passado para a filha, Bianca, de oito anos. “Ela está sempre cheirando os vasos de ervas distribuídos pelos degraus e mastigando uma folhinha de hortelã”, conta Daniel.

Na casa onde moram, no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, o jardim, que fica no quintal, com cerca de 70m², pode ser contemplado da cozinha e do lavabo, de onde conseguem admirar os pássaros chegando. O espaço é formado por cactos, suculentas e um abundante canteiro de bambu – rente ao muro. A trepadeira unha-de-gato cobre uma das paredes, outra é agraciada com vasos suspensos de orquídeas, uma amoreira e um pé de jambo. “De tão aconchegante que é o nosso jardim, decidimos montar uma cozinha integrada a ele, com direito a fogão a lenha, muito usada nos fins de semana com os amigos e a família”, conta orgulhosa Luana.

Com seus lindos e abundantes cachos , a Helicônia, que aparece na primeira foto em companhia do beija flor, é uma das grandes estrelas do quintal da casa da família de Luana Caldeira
A designer de interiores Vanessa Borges mora a poucos passos da praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. Rodeada pela natureza, quis trazê- la também para bem perto de si, em seu apartamento. “Desejava um cantinho delicioso, com inspiração italiana”, conta. Ela convidou o arquiteto paisagista Louis Marcelo Nunes para a empreitada, que decorou o jardim, no segundo andar do apartamento de cobertura, com diferentes espécies plantadas em vasos, como palmeira-bambu, vincas, suculentas, orquídeas, temperos, além de uma jabuticabeira. “É bem descontraído, como eu queria, não há nada simétrico.
Os vasos têm alturas diferentes, assim como há aromas, folhagens e cores”, diz. Voltado para seu quarto e para uma sala de TV, muito usada por seus três filhos adolescentes, é ali que Vanessa pratica aulas particulares de ioga, duas vezes por semana, bem cedo. “Começo às 7h30, quando a luz é suave. É o lugar perfeito para entrar em sintonia comigo mesma. Dispor desse espaço é um grande privilégio”, fala. À noite, o jardim se transforma e vira ponto de encontro da família. “É quando meu marido e eu nos sentamos para conversar, tomar um aperitivo, saber como foi o dia dos nossos filhos. Esse lugar faz um grande bem a todos nós.” As espécies plantadas exigem pouca manutenção e são adaptadas para ficar ao tempo. Somente os vasos com as ervas têm uma maior rotatividade, já que a família utiliza os temperos nos alimentos que consome.
Coração da casa, este recanto é um convite à meditação e aos encontros da família de Vanessa Borges
Na década de 90, a então educadora paulistana Creusa Muller tornou-se orquidófila, o hobby de quem adora cuidar de orquídeas. A paixão se tornou tamanha que ela abandonou a profissão, fez diversos cursos de paisagismo e abriu o Orquidário da Mata, em São Paulo. “Entre a minha casa e a loja eu tenho mais de quatro mil orquídeas”, conta. Mas, além delas, Creusa ama as plantas de uma forma geral. Na sua morada, onde vive com o marido e os dois filhos adolescentes, criou um jardim que a envolve totalmente e que está em constante transformação, de forma que seja florido e perfumado o ano todo.

“Na frente, por exemplo, tenho camarões, planta vermelha que floresce o ano todo. No fundo, sapatinho- de-judia, trepadeira de tons amarelo e vermelho. Borboletas e pássaros são atraídos por rosas, lírios-da- paz, arbustos como os de magnólia. E eu posso admirar isso tudo de dentro da casa, pois ela tem poucas paredes, grandes janelas e muito vidro.” Para cobrir os muros altos que fazem divisa com os vizinhos, plantou trepadeiras. “O jardim se tornou parte da minha vida. Eu não sou apegada às coisas materiais, mas ao meu jardim eu sou.” Para Creusa, todas as plantas têm umaenergia de cura. “Sempre digo que todos deveriam ter em casa lírios-da-paz, plantas purificadoras, orquídeas, que transmutam, e rosas, que desenvolvem o amor profundo, divino e a esperança.” E completa: “Cuidando delas, desenvolvi a paciência, a dedicação e até mesmo o meu amor”.

O amor dedicado às plantas mudou a forma de ser e viver de Creusa Muller
Para proporcionar aos pacientes da clínica odontológica de seu marido a mesma paz e alegria que sente com o jardim em casa, a psicóloga Lucy Teixeira não pensou duas vezes. “Fiz áreas verdes e coloquei plantas em quase toda a parte externa e interna”, explica ela, que herdou dos pais o afeto pelas plantas e flores sempre presentes no sítio da família. Lucy começou a investir no paisagismo pelo espaço integrado à sala de espera. “Criei um canteiro simples formado por pedriscos brancos, bambu-mossô e um cachepô com orquídeas, folhagens e musgos. Todos vão lá admirá-lo”. Uma cúpula de vidro sobre o local garante a incidência ideal de luz natural e atrai os olhares para cima, ainda mais depois que a trepadeira hera, plantada do lado de fora, invadiu o interior, formando um bonito desenho”.

Além disso, todas as salas clínicas, onde os pacientes são atendidos, estão voltadas para um jardim, no fundo do consultório, com árvores plantadas propositalmente em frente de cada janela. “Na hora do atendimento, eles podem relaxar olhando para aquele espaço. Essa foi a forma que encontramos de lhes dar um presente”, diz Lucy, membro do Garden Club, em São Paulo, que estimula seus participantes a praticarjardinagem. Já para contemplar o verde também de sua sala, ela instalou, na lateral da casa onde a clínica atende em São Paulo, um jardim vertical com vasos de orquídeas e samambaias. Até nas árvores da rua pôs orquídeas. “Os vizinhos adoraram a ideia e fizeram o mesmo nas árvores na frente da casa deles.” Link

Plantas e jardins no consultório odontológico de Lucy Teixeira garantem relaxamento aos pacientes
Anúncios

Portal da FELICIDADE



Na avenida do Boavista, no Porto, mesmo à frente do Hospital Militar, um condutor imobilizado no trânsito pode aproveitar a espera para esticar o braço e colher uma laranja. Infelizmente, o trânsito citadino não induz ao relaxamento, e os condutores não têm o hábito de descolar os olhos dos semafóros para inspeccionar as árvores que desfilam no separador central da via. É pena. Mesmo que a laranja não seja comestível (quantas toxinas terá ela na sua composição?), o acto de colher a fruta da árvore recupera a nossa primordial e quase esquecida ligação às coisas vivas da terra. As laranjeiras não estão ali para enfeite nem para nos dar sombra. São laranjeiras pedagógicas. Encerram uma lição.

O automobilista é atingido, como São Paulo na estrada de Damasco, por uma revelação que o atordoa; só não cai porque está sentado e pôs cinto de segurança. Quando foi a última vez que se viu diante de uma galinha não depenada nem embalada em celofane? Sabe vagamente que as macieiras dão flores perfumadas, mas não se lembra de alguma vez as ter visto ou cheirado. E as margaridas e as papoilas, que pecados são os dele para estar impedido de ir ao campo admirá-las?

Há que mudar de vida, diz ele para consigo. Nada de muito radical, trata-se apenas de abrir um ou dois furos para respirar no manto de artificialidade que nos sufoca. Não é da Felicidade com F maiúsculo que vamos à procura, mas de algumas felicidades modestas e portáteis com assinalável efeito cumulativo.

Ajuda saber dar nome às plantas, pois quando elas saem do anonimato a paisagem ganha profundidade e ressonância. Nomeá-las pela primeira vez é inaugurar uma relação de amizade que se fortalece a cada reencontro. Ao dar-nos a conhecer os nomes das plantas (e as suas relações de parentesco, e os lugares onde vivem), o portalFlora-On, criado pela Sociedade Portuguesa de Botânica, multiplica a probabilidade de encontros felizes. Por isso o Flora-On é também o portal da felicidade.

Nota. Este texto é inspirado na intervenção de Carlos Aguiar aquando da sessão de apresentação do Flora-On, que decorreu na tarde de 25 de Fevereiro, no Museu Nacional de História Natural, à rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

dias-com-arvores.blogspot