Um cereal do mundo todo



Autor: Gabi Bastos – Produção: Aida Lima – Fotos: Valerio Romahn e André Fortes –
Cultivado de um extremo ao outro do planeta, o milho alimenta a humanidade há mais de 7.000 anos

Em geral, um grão de milho dá origem a uma espiga com cerca de 640 grãos
Depois do trigo e do arroz, o milho é o cereal mais consumido no mundo. Qualidades não faltam à planta para ocupar tal posição de destaque. Fácil de cultivar, manter, colher e armazenar, o milho é um dos alimentos mais nutritivos que existem. É rico em proteínas, vitaminas A e do complexo B, ferro, fósforo, potássio… E, ao contrário de outros grãos, o milho costuma ser consumido com a casca amarela, que é rica em fibras.
Empiricamente, tais atributos já eram sabidos há muito tempo. O cereal era a base da alimentação dos povos americanos antigos e, por isso, adorado como um deus. Para os maias, civilização pré colombiana que viveu por volta de 5000 a.C., o milho era Yum Kax, o senhor das florestas, uma divindade terrestre que significava abundância e prosperidade. Já na Amazônia, os guaranis chamavam a planta de avaty, homenagem a um guerreiro que teria se sacrificado para que as tribos tivessem alimento o ano todo. Assim, como sinal de união e amizade, os índios passavam a espiga de mão em mão, antes de prepará-la para comer.
Mas o milho não foi acolhido com a mesma devoção quando chegou à Europa, levado por Cristóvão Colombo depois de ele descobrir a América, em 1492. A elite não o aceitou o alimento e só a plebe consumia os grãos por seu alto valor nutritivo. Seu sabor só começou a ser apreciado no Velho Mundo por volta de 1500, quando a Itália apresentou a primeira polenta de farinha de milho. O prato – até então preparado com farinha de cevada ou aveia – era adorado pelos nobres que o consideravam excelente acompanhamento de carnes e aves selvagens. Mas foram os portugueses o povo que mais contribuiu para difundir receitas feitas com o cereal. Eles transformaram o milho em mingau, pudins, bolo e creme de milho, entre outras delícias.
  • Milharal
Batizado cientificamente como Zea mays, que em grego quer dizer “grão maia”, o milho é cultivado do Norte da Rússia (Ásia) ao Sul da Argentina (América do Sul). Para que isso fosse possível, ao longo dos anos foram desenvolvidos inúmeras variedades e híbridos da espécie.
As variedades são desenvolvidas dentro de uma mesma população e ganham uniformidade ao longo dos anos – é preciso realizar um trabalho de seleção das sementes no campo, a fim de melhorar a produção, obter plantas mais resistentes a pragas e espigas maiores e bem formadas. Já as plantas híbridas são desenvolvidas por cruzamentos de linhagens e compõem plantações mais uniformes, espigas maiores e bem formadas logo na primeira safra. Em compensação, não produzem sementes com a mesma qualidade, o que exige um investimento a cada nova safra.
“Em geral, as variedades são desenvolvidas por pesquisadores ligados a órgãos governamentais para a utilização na agricultura familiar, pois essas pessoas não conseguem investir todos os anos na compra de sementes de plantas híbridas”, explica Aildson Pereira Duarte. “Algumas variedades até surgem pela seleção de um agricultor ou pelas plantações de uma comunidade – o chamado milho-crioulo –, mas são poucas”, complementa. Quanto às plantas híbridas, elas são milhares e existem empresas que as desenvolvem. São criadas para culturas nas mais diversas regiões, épocas de plantio, tipo de solo, nível de investimento, rotação de cultural e produto final.
Os quatro tipos de milho mais conhecidos no Brasil são o milho-verde, vendido em espigas para ser fervido; o milho-doce, mais utilizado para enlatados; o milho-pipoca, cujo nome já explica sua função; e o milho-canjica, com grãos menores e mais duros. O ciclo de desenvolvimento dessas cutivares – como é chamado o grupo que inclui variedades e híbridos – varia de quatro a dez meses. Mas fatores como clima, época de plantio e quantidade de chuvas interferem no tempo que a planta leva para produzir as espigas.
No cultivo do milho, o ideal é que as chuvas sejam suficientes para manter o solo úmido durante todo o ciclo da planta, em especial próximo do florescimento, o estágio mais crítico. Depois da maturidade fisiológica, a ausência de chuvas favorece a secagem das espigas e a manutenção da qualidade dos grãos. “Os grãos são ligados ao sabugo das espigas por uma camada de células e se desprendem na época que estão para secar. Eles não recebem mais nutrientes, nem podem trocar água com a espiga. Nessa fase, chamada de maturidade fisiológica, as chuvas podem deixar os grãos extremamente úmidos, o que atrai fungos e doenças”, explica Aildson Pereira Duarte.
Outras características que fizeram do milho uma das culturas mais difundidas no mundo foram a alta produção – um grão plantado forma uma espiga com cerca de 640 grãos – e a facilidade de armazenar as espigas. Com palha ou sem palha, uma espiga de milho chega a durar até dois anos se mantida em local bem ventilado e elevado em relação ao chão. Esse cuidado a protege da umidade e do ataque de roedores. E, como do milho tudo se aproveita, a maleável palha que reveste as espigas pode ser utilizada em artesanato, para se transformar em flores, bonecas e até em revestimento de móveis. Não é à toa que essa planta está tão enraizada na cultura global.
Consultoria: Aildson Pereira Duarte (pesquisador Programa Milho e Sorgo IAC/APTA), site:www.iac.sp.gov.br; Arquivo Embrapa Milho e Sorgo, site: www.cnpms.embrapa.br; Marina Tomioka (engenheira agrônoma), e-mail: marina_tomioka@terra.com.br
Esse trecho foi retirado da Revista Natureza, seção Curiosidades, edição 260.
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Um cereal do mundo todo



Autor: Gabi Bastos – Produção: Aida Lima – Fotos: Valerio Romahn e André Fortes –
Cultivado de um extremo ao outro do planeta, o milho alimenta a humanidade há mais de 7.000 anos

Em geral, um grão de milho dá origem a uma espiga com cerca de 640 grãos
Depois do trigo e do arroz, o milho é o cereal mais consumido no mundo. Qualidades não faltam à planta para ocupar tal posição de destaque. Fácil de cultivar, manter, colher e armazenar, o milho é um dos alimentos mais nutritivos que existem. É rico em proteínas, vitaminas A e do complexo B, ferro, fósforo, potássio… E, ao contrário de outros grãos, o milho costuma ser consumido com a casca amarela, que é rica em fibras.
Empiricamente, tais atributos já eram sabidos há muito tempo. O cereal era a base da alimentação dos povos americanos antigos e, por isso, adorado como um deus. Para os maias, civilização pré colombiana que viveu por volta de 5000 a.C., o milho era Yum Kax, o senhor das florestas, uma divindade terrestre que significava abundância e prosperidade. Já na Amazônia, os guaranis chamavam a planta de avaty, homenagem a um guerreiro que teria se sacrificado para que as tribos tivessem alimento o ano todo. Assim, como sinal de união e amizade, os índios passavam a espiga de mão em mão, antes de prepará-la para comer.
Mas o milho não foi acolhido com a mesma devoção quando chegou à Europa, levado por Cristóvão Colombo depois de ele descobrir a América, em 1492. A elite não o aceitou o alimento e só a plebe consumia os grãos por seu alto valor nutritivo. Seu sabor só começou a ser apreciado no Velho Mundo por volta de 1500, quando a Itália apresentou a primeira polenta de farinha de milho. O prato – até então preparado com farinha de cevada ou aveia – era adorado pelos nobres que o consideravam excelente acompanhamento de carnes e aves selvagens. Mas foram os portugueses o povo que mais contribuiu para difundir receitas feitas com o cereal. Eles transformaram o milho em mingau, pudins, bolo e creme de milho, entre outras delícias.
  • Milharal
Batizado cientificamente como Zea mays, que em grego quer dizer “grão maia”, o milho é cultivado do Norte da Rússia (Ásia) ao Sul da Argentina (América do Sul). Para que isso fosse possível, ao longo dos anos foram desenvolvidos inúmeras variedades e híbridos da espécie.
As variedades são desenvolvidas dentro de uma mesma população e ganham uniformidade ao longo dos anos – é preciso realizar um trabalho de seleção das sementes no campo, a fim de melhorar a produção, obter plantas mais resistentes a pragas e espigas maiores e bem formadas. Já as plantas híbridas são desenvolvidas por cruzamentos de linhagens e compõem plantações mais uniformes, espigas maiores e bem formadas logo na primeira safra. Em compensação, não produzem sementes com a mesma qualidade, o que exige um investimento a cada nova safra.
“Em geral, as variedades são desenvolvidas por pesquisadores ligados a órgãos governamentais para a utilização na agricultura familiar, pois essas pessoas não conseguem investir todos os anos na compra de sementes de plantas híbridas”, explica Aildson Pereira Duarte. “Algumas variedades até surgem pela seleção de um agricultor ou pelas plantações de uma comunidade – o chamado milho-crioulo –, mas são poucas”, complementa. Quanto às plantas híbridas, elas são milhares e existem empresas que as desenvolvem. São criadas para culturas nas mais diversas regiões, épocas de plantio, tipo de solo, nível de investimento, rotação de cultural e produto final.
Os quatro tipos de milho mais conhecidos no Brasil são o milho-verde, vendido em espigas para ser fervido; o milho-doce, mais utilizado para enlatados; o milho-pipoca, cujo nome já explica sua função; e o milho-canjica, com grãos menores e mais duros. O ciclo de desenvolvimento dessas cutivares – como é chamado o grupo que inclui variedades e híbridos – varia de quatro a dez meses. Mas fatores como clima, época de plantio e quantidade de chuvas interferem no tempo que a planta leva para produzir as espigas.
No cultivo do milho, o ideal é que as chuvas sejam suficientes para manter o solo úmido durante todo o ciclo da planta, em especial próximo do florescimento, o estágio mais crítico. Depois da maturidade fisiológica, a ausência de chuvas favorece a secagem das espigas e a manutenção da qualidade dos grãos. “Os grãos são ligados ao sabugo das espigas por uma camada de células e se desprendem na época que estão para secar. Eles não recebem mais nutrientes, nem podem trocar água com a espiga. Nessa fase, chamada de maturidade fisiológica, as chuvas podem deixar os grãos extremamente úmidos, o que atrai fungos e doenças”, explica Aildson Pereira Duarte.
Outras características que fizeram do milho uma das culturas mais difundidas no mundo foram a alta produção – um grão plantado forma uma espiga com cerca de 640 grãos – e a facilidade de armazenar as espigas. Com palha ou sem palha, uma espiga de milho chega a durar até dois anos se mantida em local bem ventilado e elevado em relação ao chão. Esse cuidado a protege da umidade e do ataque de roedores. E, como do milho tudo se aproveita, a maleável palha que reveste as espigas pode ser utilizada em artesanato, para se transformar em flores, bonecas e até em revestimento de móveis. Não é à toa que essa planta está tão enraizada na cultura global.
Consultoria: Aildson Pereira Duarte (pesquisador Programa Milho e Sorgo IAC/APTA), site:www.iac.sp.gov.br; Arquivo Embrapa Milho e Sorgo, site: www.cnpms.embrapa.br; Marina Tomioka (engenheira agrônoma), e-mail: marina_tomioka@terra.com.br
Esse trecho foi retirado da Revista Natureza, seção Curiosidades, edição 260.