Halloween versus Curupira

Hoje celebramos o Halloween, aliás me permitam uma correção, celebramos não, porque prefiro nosso genuíno folclore.
O Dia das Bruxas é uma tradição anglo-saxônica praticada pelos Celtas, que habitavam a Grã-Bretanha e a Gália seiscentos anos antes da nossa Era, e que se estendeu, com a chegada dos primeiros colonos, ao Canadá e aos Estados Unidos. Acho que a transmissão de práticas e de valores espirituais de geração em geração, preservando o conjunto das crenças de um povo é válido, quando verdadeiro e legitimamente sincero.
Mas o que tem a ver tudo isto com a gente? Bruxas, cucas e abóboras transformadas em lanternas chamadas de “Jack-o’-lantern” não espelham nossos hábitos, que vão se contaminando com a chegada de estrangeirismos, tomando o lugar de tudo aquilo que faz parte da nossa cultura. Falamos t-shirt em lugar de camiseta, show em lugar de espetáculo e empregamos o anglicismo on-line em vez de dizer simplesmente que estamos disponíveis ao vivo ou em plena operação e em tempo real. Oras, será que a nossa cultura precisa de ajuda externa para enriquecê-la? Me pergunto o que diria o antropólogo Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986) que tanto fez pelo nosso folclore, pesquisando suas origens, sabendo desta influência?

O Curupira
Como se sentiriam Mário de Andrade (1893 – 1945), o autor de Macunaíma ou Sílvio Romero (1851 — 1914), o iminente folclorista sergipano, autor, entre outros, de “Contos Populares do Brasil” vendo protelados nossos Saci-Pererê, Curupira, Boitatá, Lobisomem e Mula-sem-cabeça? Vou arriscar um palpite: mal, muito mal contemplando nossas crianças fantasiadas de esqueletos ou de bruxas pedindo um doce, sob ameaça de fazer uma travessura (trick or treat, “doce ou travessura”) Como seria melhor se aprendessem em um bom português a distinguir a abóbora rasteira da moranga, da canhão e da abobrinha em lugar de furá-la para que simulem lanternas. Coitado do nosso tão querido e tão latino-americano jerimum!
Fico torcendo para que meu herói Curupira não seja esquecido de vez. Para que o menino de cabelos compridos e vermelhos, com seus pés voltados para trás, não vire (desculpem a expressão forânea) demodê ou, para ser mais afetado, démodée e continue a proteger nossas florestas assoviando assustadoramente, intimidando aos que não a respeitam. Tomara que nossos ecossistemas sejam preservados usando o Curupira como algo emblemático que luta pelo Meio Ambiente.
Afinal das contas isto é muito mais atual do que velhas narigudas e encarquilhadas, montadas em vassouras.Link
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